

SEMPRE O GUARDA!
Euclides Francisco Amâncio, mais conhecido como Bajado, faleceu há 10 anos, num triste 15 de novembro de 1996. A cidade perdia um artista, torcedor, amigo, carnavalesco e brincalhão. De seu legado de obras e memórias, que circula até hoje pelas ruas e ladeiras de Olinda, constam histórias e recordações, contadas nas próximas linhas por Gizelda Pereira Amâncio, uma dos seus sete filhos e moradora da casa 186 da Rua do Amparo. Um ponto de partida para nós e um portal para a imaginação de Bajado, que através das janelas via uma Olinda enfeitada, colorida e alegre. Um artista apaixonado, como ele gostava de assinar.
Quais as principais lembranças de seu pai?
Lembro-me dele pintando e aprontando algumas façanhas. Ele gostava muito de brincar com os outros. Para ele, tudo sempre terminava bem. Às vezes minha mãe até ficava aborrecida, mas ele chegava e dizia: “minha filha, tenha fé em Deus que tudo termina bem!!”. Eu ria quando ele perguntava: “minha filha, quantos anos você tem?”. Ela dizia: “eu tenho 60!”. E ele: “eu tenho apenas 18!!”. Era um homem que não fazia nada mandado. “Não gosto que ninguém mande em mim. Faço minha arte, já nasci sabendo e não sou empregado de ninguém”. A vida dele era ficar na janela, fazer seu trabalho e olhar um e outro passar. Mas não era para ver a vida das pessoas não; era para brincar com todos.
Era um espírito carnavalesco?
Ah, ele era muito carnavalesco. Brincava carnaval de verdade. Nem sei como ele agüentava. Brincou até uns 75 anos. Ele saia de casa e só aparecia depois do (Bacalhau do) Batata. Uma vez, terminou de ornamentar o Homem da Meia Noite, chegou em casa cansado, pegou uma plaquinha e desenhou: “pagaram a todo mundo e não pagaram a Bajado”. Parece que ele estava com raiva do pessoal que ainda não tinha pago a ele. Daí, quando a Mulher do Dia chegou para cumprimentá-lo (os blocos sempre vinham cumprimentá-lo), mamãe disse: “acho que Bajado já tá dormindo!!”; mas, na verdade, ele tinha pregado a tabuletinha num cabo de vassoura e saído pelo oitão de casa para brincar no bloco. Muito tempo depois, a gente acabou encontrando ele lá no Amparo, todo queimando (de sol) e com a plaquinha ainda na mão.
E Olinda?
Ele dizia ser a terra natal dele. “Eu nasci outra vez quando cheguei em Olinda. Aqui cheguei, fiquei e vou me enterrar”. Ele teve diversos convites para sair da cidade, mas nunca quis. Papai nunca foi ambicioso. Mesmo se desenhasse alguma coisa para alguém, essa pessoa pagava se quisesse. Minha mãe é quem dava em cima; mas se a pessoa chegasse e pedisse o desenho, ele dizia: “leve meu filho, é seu!”. Ele nunca fez questão de ganhar muito dinheiro e nem de ser rico.
Como surgiu o nome Bajado?
Papai nasceu em Maraial (Zona da Mata Sul de Pernambuco), mas foi criado em Catende (também na Zona da Mata Sul) e mudou-se logo cedo para o Recife. Veio morar em Olinda e nunca mais saiu. O apelido surgiu numa brincadeira, num jogo de apostas. “Coloco 10 mirréis Bajado no bicho!”. E ninguém entendeu: “Bajado?”. Mas ele ganhou a partida e ficou conhecido pelo nome. Até a própria família passou a chamá-lo assim. O nome Euclides era muito difícil para meus avós, que eram analfabetos (foi um padrinho quem o registrou), e, às vezes, eles não conseguiam pronunciar: Oclídio, Oclídes! Aí, meu pai dizia: “é melhor vocês me chamarem de Bajado mesmo!”.
Por que ele era tão brincalhão?
Não sei. Ele era assim. Tudo dele era uma comédia como num filme. Acho que ele achava que a vida era uma comédia mesmo. Ele dizia: “a vida é uma comédia; uma divina comédia”.
É verdade que ele gostava de cinema?
Ele começou a trabalhar no cinema logo cedo. Ainda quando era garoto. Foi por causa disso que aprendeu a fazer letreiros. Ele trabalhava no cinema de Catende e aprendeu a fazer os cartazes, com o desenhista do lugar. Passava o dia desenhando imagens dos filmes. E quando o cartazista do cinema saiu, ele ficou fazendo os letreiros em troca de ingressos para os filmes.
Alguma outra história engraçada?
Uma vez, ele foi convidado por Zé das Tranças (teatrólogo) para fazer o papel de um índio numa peça que seria exibida naquela noite e teve problemas com um dos atores. Não era nada demais, ele iria apenas aparecer no final e responder a pergunta de uma moça: “índio, o que você quer?”. Ele deveria dizer: “quero um Brasil melhor e uma Olinda melhor”. Depois de muita insistência do teatrólogo, ele aceitou, mas, na hora, quando a moça perguntou “Bajado, índio do Brasil, o que você quer?”, ele disse “quero meus 10 mirréis , que vocês prometeram e ainda não me pagaram”. As cortinas se fecharam bem rápido e todos caíram na gargalhada. (Risos)
O que é a obra de Bajado na sua opinião?
É uma arte naif. Um trabalho primitivo. Ninguém o ensinou a desenhar, mas isso já fazia parte dele. Era como uma diversão. Ele não podia passar um dia sem riscar. Sempre tinha que estar com um lápis na mão. Adorava a época de carnaval porque adorava ver a cidade arrumada e também gostava de ajudar a arrumar. Deixou para mim a vida, a experiência e a maneira de viver. Papai era um sábio, ele sabia muitas coisas. Só agora eu vejo como os conselhos dele, eram tão importantes.
A senhora pode relembrar e descrever uma obra dele?
Lembro de um quadro com o maracatu. Era a imagem do Maracatu Cata-Lixo (grupo que também foi criado por ele), que trazia na frente uma negra bem forte, com um pano na cabeça e uma boneca na mão. O boi era marrom e o chão era amarelo. A negra tinha saia vermelha, blusa branca e era cheia de colares. Atrás dela vinha uns três ou quatro (personagens) tocando bombo, além de algumas baianas e de uma grande sombrinha. Também tinham dois guardas do rei e ele era um desses guardas, com uma espada na mão para defender o rei. Ele sempre dizia: “eu nunca quis ser rei; mas sou sempre o guarda!”.
Entrevista por Thiago Marinho